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terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Dois poemas-manifestos contra a homofobia


Foto: John Tarantola



Chegarão sorrateiros, completamente lúcidos,
Eu estarei ébrio. Eles me tomarão pelo braço
E me arrastarão pelas ruas da cidade
Enquanto uns e outros me xingam e deixam marcas
Espalhadas pelo meu corpo.

Um deles, ao fim de uma avenida, me amarrará a
Um poste e me chicoteará com a veemência
Com que os soldados chicotearam cristo,
E me lançarão objetos de longe,
Assim como lançaram flechas em São Sebastião.

Eu me resignarei no meu orgulho
E não perderei o meu direito de ser,
Mesmo quando ver no olhar da morte
A minha não-vida, e na mão de um dos homens
Uma enorme pedra que afundará a minha cabeça.



Foto: Danny Keith


Alguns, quando olham para mim não vêm
Um homem, mas algo monstruoso e inexplicável.
Inquirem meus gestos, minha forma de agir
De falar e tomam conta dos meus modos
Como se eu fosse incompreensível.

Não, não sou! Quem lhes contou as histórias
De ninar antes que fossem dormir,
Esqueceram de contar esta parte da história.

Sempre estivemos aqui, bem antes que qualquer um
Supusesse a verdade ser absoluta.

Não há no mundo nada que explique o mistério da existência,
Mas não obstante, os olhos dos que detêm
A moral entre as pernas tentam justificar
O ser com suas suposições tolas.

Estamos todos no mesmo barco.
Quando partirem as naus, iremos todos para o mesmo lugar.

Estamos todos na mesma busca compulsiva
Para encontrar um lugar no mundo – o encaixe perfeito.

A vida já é essa brecha, essa permissão que nos é dada.
Por quem? Por nós mesmos.

Somos todos humanos, tão frágeis... Iguais.

Alguns, quando olham para mim, vêm uma bruxa
Abençoada por Lilith, não, não sou!
E Lilith fora uma senhora a frente do seu tempo,
Se é que existe tempo.

Pois não me olhem, abaixem suas cabeças,
Ou me encarem de frente, mas respeitem

A manifestação natural do meu ser. 

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